O que é o MPB, em uma definição que não serve para outro gênero
MPB é a sigla que passou a nomear, a partir da segunda metade dos anos 1960, uma canção brasileira urbana que absorvia tradições regionais e referências internacionais sem abandonar o idioma, a prosódia e os ritmos do país. Ela nasceu em torno de festivais, programas de televisão, gravadoras e compositores ligados à bossa nova, ao samba e à canção de protesto. Por isso, MPB é gênero musical e também uma categoria histórica de mercado.
O traço específico está na convivência entre uma melodia cantável e uma elaboração harmônica ou rítmica que não fica apenas no acompanhamento. Um baião pode aparecer com arranjo orquestral. Um samba pode receber acordes alterados. Uma canção de três acordes pode ganhar uma interpretação política, teatral ou intimista. O rótulo acompanha essa passagem entre tradição popular, criação autoral e arranjo sofisticado.
Chamar qualquer música brasileira de MPB apaga diferenças. Pagode, sertanejo, forró, axé e gospel têm histórias e convenções próprias. Uma gravação pode dialogar com esses estilos e ainda ser classificada como MPB, mas a classificação depende do repertório, do circuito e do modo como a obra combina canto, texto, ritmo e arranjo. A sigla funciona melhor como uma família histórica do que como uma receita de produção.
Na prática, classifique uma faixa com três perguntas. Ela trata a voz e o texto como elementos centrais? O arranjo combina pelo menos uma matriz brasileira com uma escolha autoral de harmonia, timbre ou forma? A obra circula na tradição da canção popular brasileira, em vez de seguir apenas a convenção de um mercado específico, como o sertanejo universitário ou o pagode romântico? Quanto mais respostas positivas, mais útil se torna o rótulo MPB.